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O peso do pássaro morto

por Ingrid Bianka
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Esta narrativa contemporânea é um romance escrito em versos que através de suas poucas páginas nos trás uma profundidade inimaginável sobre os percalços da vida de uma mulher entre seus 8 e 52 anos.

  • Livro: O peso do pássaro morto 
  • Autor: Aline Bei 
  • Editora: Nós 
  • Páginas: 168 
  • Nota: 5/5

O livro é uma surpresa do começo ao fim, mas o contato inicial já é o suficiente para causar um choque. Ao buscar um romance para ler eu nunca imaginei encontrar versos nas páginas de um livro, tampouco ao ver um livro com tão poucas páginas pude imaginar a densidade que este teria, ou as grandes emoções que poderia conter em seu texto.

Em seu livro de estreia, Aline Bei retrata basicamente as angústias de uma vida inteira, curta, breve e sofrida, onde basicamente podemos afirmar que desde o princípio gira em torno da morte.

“[…] mas sei que a cura mesmo não existe. Porque curar alguém é deixar o mundo feliz inteirinho e o mundo inteirinho é triste, triste, professora…”

A narrativa é escrita em primeira pessoa e narrada por uma mulher cujo nome não é nos dado, apenas sua idade de acordo com os capítulos, mas mesmo com a identidade sendo negada ao leitor é fácil identificarmos todos os traços de personalidade, ou até mesmo imaginar esta mulher diante de nossos olhos, algo no sofrimento retratado tem uma veia lúdica o suficiente para inspirar belos (e sofridos) retratos na mente do leitor.

Na maior parte desta narrativa não estamos lidando com uma criança, ainda assim encontramos um tom jovial e talvez até mesmo uma forte inocência nas palavras da protagonista, é possível notarmos uma suavidade infantil na forma que esta mulher nos conta cada pequeno encontro com a morte que teve desde os seus oito anos de idade. Seja isso decorrência da abrupta interrupção da sua juventude ou de seus constantes encontros prematuros com a morte, assim como assistimos a prematuridade deste sofrimento nos deparamos com um amadurecimento repentino soror do fim.

Para mim a morte é o tema central deste texto, não necessariamente a morte física, mas há algo maior, que acontece após cada violência sofrida ou assistida: a morte da alma. O que acompanha esta protagonista durante toda a sua pequena vida não é nada se não um evento constante de fragmentação da sua alma, o fortalecimento da sua angústia de viver, até que não haveria mais formas de contornar o inevitável.

“- o que é morrer?

ela estava fritando bife pro almoço.

– o bife

morrer é, porque morrer é não poder mais escolher o que

escolher com a sua carne.

quando somos vivos, muitas vezes também não escolhemos.

mas tentamos.”

Particularmente meu último encontro tão intenso com uma narrativa de angústia foi com as poesias de Florbela Espanca e até então eu não imaginava que tão brevemente iria me deparar com algo tão belo e doloroso quanto as palavras de Aline Bei nestes seus versos prosaicos.

Não haveria como eu dar qualquer outra nota para este livro, 5 estrelas e não se fala mais nisso! 
obs: Este livro é uma leitura intensa e bela, ainda assim o enredo possui certas experiências que podem servir como gatilho para algumas pessoas, sendo assim se você não se sente confortável com os seguintes temas eu recomendo não ler O peso do pássaro morto no momento. Os temas são: estupro, bulying, gravidez forçada, morte.

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